6. MEDICINA E BEM-ESTAR 19.6.13

AS ARMADILHAS DO CREBRO PARA SABOTAR A SUA DIETA

Novas pesquisas revelam os mecanismos cerebrais que levam as pessoas a comer mais. saiba como driblar essas ciladas da mente e resistir s tentaes
Cilene Pereira e Monique Oliveira

No esforo para reduzir a epidemia mundial de obesidade, a cincia tem centrado seu empenho em descobrir todos os fatores que propiciam o acmulo de peso. Nesse campo, a ltima das principais descobertas joga luz sobre o papel do crebro na questo. E, ao que parece, muitas vezes ele mais trabalha contra do que a nosso favor. Engendra armadilhas que impulsionam as pessoas a comer mais, a resistir menos, a fazer as escolhas erradas. Tudo isso sem que elas se deem conta de que esto sob sua influncia. Ou seja, engordam, sem perceber que esto sendo levadas a isso.

As informaes reveladas pelas pesquisas mais recentes apontam vrios mecanismos pelos quais o crebro tenta sabotar os esforos para emagrecer. O primeiro deles remonta ao incio da evoluo humana, quando o homem lanava mo de todas as estratgias para sobreviver. Entre elas estava o armazenamento da maior quantidade possvel de energia obtida a partir dos alimentos  uma garantia de que o corpo teria combustvel suficiente para funcionar mesmo em condies adversas. Foi algo til naquelas circunstncias, mas hoje perdeu o sentido. Trata-se, porm, de um estratagema gravado na memria. Por isso, a cada situao que o crebro entende como uma ameaa ao estoque energtico do organismo, a resposta  a mesma: uma ordem para guardar mais calorias. Instintivamente, o indivduo vai procurar consumir as opes com maior teor calrico  leia-se, alimentos com mais gordura e acar  e haver reaes cerebrais para reduzir o ritmo metablico.

Isso fica claro quando se analisam, por exemplo, as concluses dos novos estudos a respeito do impacto da falta de regularidade na ingesto de alimentos. Um dos mais recentes foi realizado na Cornell University (EUA). Os cientistas acompanharam as reaes de 68 voluntrios. Parte comeu algo horas antes de ir a um supermercado e a outra metade, no. Aqueles que entraram com fome no s compraram mais produtos como adquiriram 31% mais artigos com alto contedo calrico. Foi o crebro mandando sinais para assegurar aporte energtico. At pequenos perodos sem comer podem levar a escolhas em que so privilegiados os alimentos calricos em detrimento dos saudveis, disse Brian Wansink, autor do trabalho. Por isso, a melhor coisa a fazer  no pular refeies.

Situao semelhante ocorre quando se dorme mal ou menos horas do que o necessrio. O crebro entende esses episdios como ameaas ao estoque de energia para o dia seguinte. Trabalha para dar mais combustvel a um organismo que, na sua avaliao, precisar de mais esforo para vencer a jornada. Na Columbia University (EUA), os cientistas constataram uma reao interessante. Depois de acompanharem as respostas cerebrais de 25 indivduos aps oito horas de sono e depois de apenas quatro horas de descanso, eles verificaram que quando os participantes estavam sonolentos apresentavam uma reao mais intensa diante de imagens de opes muito calricas e que apresentavam uma composio nutricional mais variada. Nessas horas, ningum procura um doce de abbora, explica o psiquiatra Adriano Segal, da Associao Brasileira para o Estudo da Obesidade. Esse doce no concentra outros nutrientes necessrios  vida, como prote-na e carboidrato.  mais fcil recorrer a um pudim, que possui ambos.

A herana ancestral se manifesta tambm no funcionamento do relgio biolgico. Ele foi programado para impelir o organismo a ter fome de doces  noite  para guardar energia visando o dia seguinte. Isso serviu no passado, mas hoje aumenta o risco de ganho de peso, afirmou  ISTO Steven Shea, da Oregon Health & Science University (EUA). Ele conduziu um experimento no qual essa vontade de comer acar ficou patente a partir do entardecer. E se voc fica acordado at mais tarde, no perodo em que naturalmente tem mais fome por doces, comer mais calorias, no ir gast-las porque ir descansar depois e ter seu sono prejudicado, disse o pesquisador. Tudo isso leva  obesidade. Por isso, durma cedo.

O consenso cientfico nesse ponto  de que as refeies mais fartas e calricas devem ser as primeiras do dia. As pessoas devem fazer um timo caf da manh o mais cedo possvel e depois diminuir a quantidade de calorias ingeridas, disse  ISTO Marta Garaulet Aza, da Universidade de Murcia, na Espanha, coautora de uma experincia na qual foi constatado que pessoas habituadas a comer mais tarde perdem menos peso.

Ao longo da evoluo, o crebro tambm foi sendo condicionado a interpretar a comida como fonte de prazer.  o que os cientistas chamam de fome ligada ao hedonismo. Estudos comprovam a existncia de mecanismos de neuroadaptao que nos levam a procurar recompensas emocionais, que atuaro nos nossos controles hormonais, em busca da manuteno da vida, diz a nutricionista Alessandra Luglio, de So Paulo. Isso quer dizer que o rgo estimula o consumo de alternativas associadas a alto contedo calrico e tambm a maior sensao de bem-estar.  por essa razo que ningum procura compensao em um prato de salada. Vai busc-la em um pedao de bolo, de chocolate ou em um hambrguer.

H dois problemas nessa armadilha. Alm de serem muito calricos, descobriu-se recentemente que alimentos como esses contm nutrientes capazes de disparar, no crebro, uma espcie de dependncia. A ingesto alimentar  controlada por fatores cognitivos, emocionais e de recompensa, envolvendo a mesma via neuronal pela qual  processado o vcio em uma determinada substncia, afirma a nutricionista Elaine de Pdua, de So Paulo. De fato, aps serem ingeridos, eles ativam em cheio o centro cerebral vinculado  dependncia. Por isso, a ingesto constante desse gnero de produtos far com que o indivduo seja induzido a querer sempre mais para sentir o mesmo prazer.

E de forma impulsiva, em muitos casos. Afinal, como revelou um trabalho feito na Universidade de Iowa (EUA), anunciado na ltima semana, os circuitos cerebrais envolvidos em comportamentos obsessivos-compulsivos esto conectados aos que controlam a ingesto de comida. Pequenas perturbaes nesse sistema podem levar  obesidade porque incentivam o consumo em demasia de opes gordurosas, disse Michael Lutter, autor do trabalho.

Esses mecanismos explicam, por exemplo, por que  difcil comer apenas uma batatinha frita ou poucas pipocas. Simplesmente no se consegue parar. So alimentos ricos em gordura e carboidratos, que estimulam mensagens de prazer para o crebro e podem levar  dependncia, disse  ISTO Tobias Hoch, da FAU Erlangen-Nuremberg, da Alemanha, estudioso do tema. Alm disso, podem acionar os tais circuitos cerebrais vinculados a comportamentos obsessivos. Ou seja, provavelmente sero consumidos vorazmente, at o fim.

E h mais informaes indicativas de como o crebro pode trabalhar contra. Em uma pesquisa divulgada na ltima semana, cientistas da Universidade de Wurzburg, na Alemanha, descobriram que, quando se est triste, a tendncia no  s procurar opes mais gordurosas. A pessoa tambm tem reduzida sua habilidade de sentir quanto de gordura est ingerindo.  como se um vu descesse temporariamente sobre o paladar  e o indivduo perde a conta de quanto est consumindo de algo que o far ganhar alguns quilos.

Para tornar ainda mais difcil a briga contra a balana, o crebro reage melhor a refeies repletas de gordura e acar, mesmo quando elas so menos saborosas do que outras, saudveis. Cientistas da Universidade de Yale (EUA) provaram este efeito. Por meio da anlise de imagens do crebro de participantes aps a ingesto de bebidas mais e menos aucaradas, eles viram que a sensao de satisfao era maior com as mais doces, mesmo com os voluntrios achando as menos adocicadas mais saborosas.

O consumo constante de alimentos gordurosos provoca outros danos que levam  obesidade. O primeiro  ao funcionamento do hipotlamo, estrutura do crebro responsvel pela sensao de fome. Pesquisadores da Universidade de Washington (EUA) identificaram um processo de inflamao, e consequente leso na regio onde ele est localizado, deflagrado apenas trs dias depois da ingesto de uma dieta rica em gordura. A observao foi feita em animais Quando o crebro est inflamado, o hipotlamo tem dificuldade de relacionar a ingesto versus saciedade, explica a nutricionista Liliane Moitinho, do Rio de Janeiro. Os prejuzos gerados pela inflamao podem reduzir o controle da pessoa sobre seus hbitos alimentares, complementa a nutricionista Madalena Vallinoti, de So Paulo.

O mesmo trabalho de Washington registrou que o consumo exagerado de gordura provoca ainda uma diminuio de 25% no nmero de determinadas clulas que desempenham papel importante no controle do peso, ajudando a regular o apetite. Mais um golpe contra qualquer tentativa de emagrecer.

Encher o prato com escolhas repletas de gordura e acar ainda prejudica o raciocnio, o que interfere no processo de tomada de deciso. O alto consumo desses nutrientes tem impacto negativo no funcionamento do crebro, explicou o cientista Rosebud Roberts, da Clnica Mayo (EUA). Ele foi um dos pesquisadores que constataram um declnio cognitivo em pessoas habituadas a ingerir refeies gordurosas e com muito acar. Com o raciocnio enfraquecido, a tendncia  errar no momento de optar entre o que faz bem, mas no parece to atraente, e o que faz mal, mas salta aos olhos.

Essas informaes reforam a convico cientfica de que, quando o assunto  obesidade, as pessoas podem no estar tanto no controle quanto pensam. Por outro lado, a mesma linha de pesquisa que embasa essa concluso apresenta algumas estratgias para neutralizar as tentativas cerebrais de sabotagem. Nos ltimos anos, dezenas de experimentos com o crebro deixam patente que  possvel trein-lo  e, em muitos casos, engan-lo (leia no quadro abaixo).

Uma das armas que podem ser usadas  a memria. Uma experincia da Universidade de Bristol, na Inglaterra, revelou que somente a lembrana de ter saboreado uma farta refeio pode ser suficiente para deixar as pessoas com menos fome, mesmo horas depois do repasto. Os cientistas mostraram a voluntrios pequenas ou grandes pores de sopa pouco antes do almoo. Em seguida, deram a cada um deles pores de tamanhos similares. Trs horas aps terem sido alimentados, os que tinham visto as fraes maiores manifestavam menos fome. Vinte horas depois, a saciedade entre este grupo permanecia mais forte. Esse estudo expe o papel da cognio no controle da fome, disse Jeffrey Brunstrom, lder do trabalho.

Uma pesquisa feita na Universidade de Cornell (EUA) comprova a tese da importncia da mente quando ela  usada a nosso favor. Dois grupos de participantes foram investigados para saber como se sentiam 15 minutos depois de comer chocolate, torta de ma e batatinha frita. Metade ingeriu fraes grandes, que totalizavam 1,3 mil calorias. O restante foi alimentado com o equivalente a 195 calorias. Os que comeram mais no ficaram mais saciados do que os que comeram menos, escreveram os autores do trabalho. Pequenas pores proporcionam satisfao similar  promovida pelas grandes. Ento, da prxima vez que quiser um pedao de bolo, lembre-se de que voc pode ficar feliz com um pedao menor, aconselhou a cientista Ellen van Kleef. E se tiver um aroma mais forte, melhor ainda. Segundo experincia divulgada na revista cientfica Flavour, quanto mais intenso o cheiro do alimento, menor o tamanho das mordidas. E as pessoas comem menos se a mordida for pequena, disse  ISTO Ren de Wijk, autor do trabalho que registrou uma reduo de 5% a 10% no tamanho das mordidas quando a opo tinha um aroma mais pronunciado.  

